segunda-feira, 12 de abril de 2010

Do começo ao fim

E foi assim quando o ví morrer na beira do mar. Nesse mesmo instante correu solto um vídeo na minha cabeça com todas nossas lembranças. Mas isso só não acontece quando você passa por um momento crítico e acha que vai morrer? Não é nessa hora que "a vida passa diante dos seus olhos"? Mas me dei conta que era tudo ao contrário. Tudo que já tínhamos feito estava sendo apagado. As pegadas dele iam sumindo, os copos usados... As mesas que antes tinham nossas duas refeições iam desaparecendo e restava apenas o meu prato.

Fiquei observando enquanto o corpo dele boiava e me pus a pensar se era para isso que dedicamos tanto o nosso tempo e todo nosso amor. Porque a vida leva mesmo e não adianta o quanto você queira o contrário. A vida não mima, não faz as nossas vontades. E lá estava eu... Diante da maior tragédia, da maior desgraça que já me acontecera. Não sabia se chorava, se apoiava a cabeça dele no meu peito, se gritava com Deus, se me jogava de um prédio.

Apenas tirei o corpo da margem e empurrei de encontro as ondas, elas seriam as mais sábias naquele momento. Chorei tanto ao ver aquela cena pensando no frio absurdo que ele deveria estar sentindo e que eu não estava lá para ajudar. Chorava mais ao pensar que nunca mais ele seria meu, que nunca mais o veria, que nunca mais saberia do seu paradeiro... Se está bem, mal, se precisa de alguma coisa. Ofereci naquela hora seu corpo a Yemanjá, se ela é mesmo a rainha do mar vai saber como cuidar do meu bem.

Minha vontade era de virar uma gaivota e voar o mais alto possível, até queimar minhas asas, até não mais existir. Aquela cena de filme, uma praia bucólica, uma paisagem desenhada por nosso Senhor e lá estava eu. Como que preso num espelho, sem conseguir me mexer, sem reagir. Sozinho... só em pensar já doía, tudo doía. Existir já doía. Doía ver o mar tragando toda a minha vida. Doía olhar para frente e não enxergar um fim.

Comecei a pensar num fim que fosse decente. O dia da minha morte... lembrei da telenovela "A Viagem", nessas horas a gente fica brega, desesperada. Me recordei do último capítulo, quando chegava a hora de partir da protagonista e de quando ela chegou no paraíso... A primeira a recebê-la foi sua mãe. Naquele momento isso foi reconfortante. Pensar que, quando finalmente me livrasse disso aqui, eu o teria a minha espera de braços abertos correndo pelos campos verdes para o nosso abraço.

Ví que de nada adiantaria esperar, que aquilo já era o fim e decidi pelo meu bem ir de encontro ao destino. Tirei o vestido bege de areia e fui entrando. Nesse momento passou novamente o nosso filme, só que dessa vez ele era a respeito de nós dois... Nós dois juntos. Me afoguei naquele dia com um sorriso no rosto. Não senti nada. Acordei e olhei ao redor... Havia um campo verde lindo onde todos passeavam, onde só haviam sorrisos. Levantei e comecei a correr e então o encontrei.

Ele olhou para mim e parecia que o meu coração tinha voltado a bater. Sorriu e seguiu em outra direção. Então eu percebi que estava no inferno. Todas aquelas pessoas não tinham nenhuma recordação de suas vidas. Ví que, da mesma forma que acontece na terra, ali eu teria que recomeçar do zero. O pior de tudo isso era vê-lo sem poder tocá-lo da mesma forma. O pior era não poder chorar, porque lá não era permitido. E acordei da cama e vim escrever isso.

Às vezes os sonhos ruins vem para nos conscientizar do quanto o tempo é curto aqui nesse plano, por isso escrevo isso. Porque amanhã, quando acharem essa carta, vão entender que nada vale a pena e que ficar por aqui só prolonga o nosso sofrimento. Nossos corpos serão encontrados nus e todos sujos de sangue. Nele um buraco na testa e em mim no coração. Nosso sangue vai fugir para se encontrar em nossas peles e então seremos um só. E nos jornais eles poderão colocar: Casal faz juramento de sangue e vive feliz para sempre.

FIM

2 comentários:

Victor Manfredine disse...

não gostei nada desse 'FIM' no final.

Irlla Narel disse...

E o pra sempre existe?